Cultura corporal afro-baiana na Educação Física Escolar: território, poder, identidade e justiça curricular

A Bahia constitui um dos principais territórios de produção, preservação e reinvenção das culturas afro-brasileiras no Brasil. Suas práticas corporais como:   o samba de roda, o maculelê, o afoxé, as danças de matriz africana, os cortejos populares e as expressões corporais ligadas às religiões de matriz africana não podem ser compreendidas apenas como manifestações culturais ou eventos festivos. Trata-se de um patrimônio cultural vivo, forjado em contextos históricos de violência colonial, escravização, racismo estrutural e resistência negra, no qual o corpo assume centralidade como linguagem política, estética, pedagógica e identitária.

No âmbito da Educação Física Escolar, a cultura corporal afro-baiana ocupa um lugar estratégico para a consolidação da Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) e para o enfrentamento das desigualdades raciais historicamente reproduzidas pelo currículo escolar. A Educação Física, enquanto componente curricular que atua diretamente sobre o corpo, o movimento e as práticas culturais, não é neutra: ela participa ativamente da produção de hierarquias simbólicas, legitimando determinadas expressões corporais em detrimento de outras. Nesse sentido, a exclusão ou marginalização das práticas afro-baianas no currículo revela escolhas políticas e epistemológicas que precisam ser problematizadas.

As práticas corporais afro-baianas são resultado de processos coletivos de resistência cultural, nos quais as populações negras transformaram o corpo em instrumento de sobrevivência, comunicação e afirmação identitária. O samba de roda, por exemplo, articula música, dança, oralidade e circularidade, expressando valores como ancestralidade, coletividade e pertencimento comunitário. O maculelê mobiliza elementos de jogo, luta e dança, conectando narrativa histórica, corporeidade e resistência. O afoxé, por sua vez, estabelece vínculos profundos entre corpo, espiritualidade, musicalidade e identidade afro-religiosa, reafirmando o direito à presença negra no espaço público.

Quando essas práticas são incorporadas de forma crítica à Educação Física Escolar, deixam de ocupar o lugar da folclorização e passam a ser reconhecidas como conhecimentos corporais legítimos, capazes de produzir aprendizagens motoras, culturais, históricas e socioemocionais. Essa inserção amplia o repertório da cultura corporal dos estudantes e contribui para a construção de uma escola mais conectada ao território, às experiências dos sujeitos e às realidades socioculturais locais.

A perspectiva da ERER orienta que o trabalho pedagógico com a cultura corporal afro-baiana vá além da vivência técnica ou recreativa. É fundamental problematizar os processos de invisibilização, apropriação cultural, racismo estrutural e desigualdade social que atravessam essas manifestações. Reconhecer a Bahia como território negro implica compreender suas contradições: trata-se de um espaço de intensa produção cultural afro-brasileira, mas também marcado por profundas desigualdades raciais, sociais e educacionais. A Educação Física, nesse contexto, assume papel central na disputa por sentidos sobre o corpo negro, historicamente associado a estereótipos, controle e desvalorização.

Do ponto de vista pedagógico, a inserção da cultura corporal afro-baiana favorece metodologias críticas, participativas e dialógicas, nas quais os estudantes são reconhecidos como sujeitos ativos da aprendizagem. As aulas podem articular vivências corporais, pesquisa, análise de contextos históricos, produção coletiva de conhecimento e diálogo com saberes da comunidade. A avaliação deve romper com lógicas meritocráticas e tecnicistas, priorizando processos de participação, envolvimento, reflexão crítica, escuta e compreensão cultural, em consonância com os princípios da educação antirracista.

Ao integrar de forma sistemática e contextualizada a cultura corporal afro-baiana à Educação Física Escolar, a escola avança na efetivação da Lei nº 10.639/2003 e na construção de um currículo plural, antirracista, territorializado e socialmente referenciado. Trata-se de um movimento que reposiciona a Educação Física como campo estratégico na formação de sujeitos críticos, conscientes das relações de poder que atravessam o corpo, a cultura e a educação, e comprometidos com a transformação das desigualdades raciais na sociedade brasileira.

Saionara Oliveira – Professora de Educação Física da Educação Básica


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