Educação Física, Educação das Relações Étnico-Raciais e EJA: corpos, histórias e trajetória

 A Educação de Jovens e Adultos (EJA) apresenta especificidades pedagógicas que exigem abordagens sensíveis às trajetórias de vida, às experiências de trabalho, às responsabilidades familiares e às histórias de exclusão educacional vivenciadas pelos sujeitos que retornam à escola. No campo da Educação Física Escolar, essas especificidades tornam-se ainda mais evidentes quando articuladas à Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER), considerando que grande parte do público da EJA é composta por pessoas negras, periféricas e pertencentes a grupos historicamente marginalizados pelos sistemas educacionais formais.

Na Educação Física da EJA, o corpo não pode ser compreendido apenas como objeto de treinamento motor ou de prescrição de exercícios. Trata-se de um corpo marcado por memórias, saberes, experiências laborais, resistências e vivências sociais acumuladas ao longo da vida. Trabalhar a ERER nesse contexto implica reconhecer o corpo como território de história, identidade e produção de conhecimento, rompendo com perspectivas escolarizantes que desconsideram as experiências prévias dos estudantes jovens, adultos e idosos.

Uma Educação Física orientada pela ERER na EJA valoriza práticas corporais que dialogam com o cotidiano dos estudantes, como jogos populares, danças de matriz africana e afro-brasileira, manifestações culturais locais, práticas corporais vinculadas ao trabalho, ao lazer comunitário e às relações de sociabilidade construídas nos territórios. Essas práticas possibilitam o reconhecimento dos saberes corporais historicamente deslegitimados, ao mesmo tempo em que ampliam o repertório cultural e fortalecem o vínculo dos estudantes com a escola.

Do ponto de vista formativo, a Educação Física na EJA, quando orientada por uma perspectiva antirracista, contribui para o fortalecimento da identidade, da autoestima e do sentimento de pertencimento dos estudantes. Ao legitimar experiências corporais invisibilizadas e problematizar desigualdades raciais e sociais, o componente curricular ultrapassa a dimensão física e assume um papel educativo crítico, favorecendo reflexões sobre racismo, direitos sociais, condições de trabalho e cidadania.

O planejamento pedagógico na Educação Física da EJA deve ser construído a partir da escuta ativa dos estudantes, do respeito às suas condições físicas, emocionais e de saúde, e da valorização da construção coletiva das aulas. Metodologias participativas, flexíveis e dialógicas permitem que os estudantes se reconheçam como sujeitos do processo educativo, fortalecendo o sentido da permanência e da participação na escola. Nesse contexto, a ERER não aparece como conteúdo isolado, mas como princípio orientador das práticas pedagógicas.

Assim, a integração da Educação das Relações Étnico-Raciais à Educação Física na EJA configura-se como um potente instrumento de valorização das trajetórias de vida, de enfrentamento das desigualdades raciais e de construção de uma educação verdadeiramente inclusiva, democrática e socialmente referenciada. Ao reconhecer o corpo como lugar de memória, resistência e saber, a Educação Física reafirma seu compromisso com a justiça curricular e com a formação humana integral.

Saionara Oliveira
Professora de Educação Física da Educação Básica

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